Horta escolar:
Meios saudáveis no modo de relacionar-se das crianças com a natureza na
construção de uma horta.
Carla Luisa Frey Bamberg[1]
RESUMO:
O
presente artigo apresenta uma reflexão sobre a prática de estágio obrigatório
II do Centro Universitário La Salle – Unilassalle -, realizado em uma turma de
Jardim II (com 5 e 6 anos de idade) da Educação Infantil em uma escola pública
do município de Canoas. Apresenta de forma resumida e sucinta a abordagem do
projeto “Horta escolar”, bem como a importância de
trabalhar este projeto “horta” desde cedo com
crianças, envolvendo a família, professores e a comunidade escolar no
processo de construção de hábitos saudáveis. A horta inserida no ambiente
escolar torna-se um laboratório que possibilita o desenvolvimento de diversas
atividades pedagógicas em educação ambiental e alimentar, unindo teoria e
prática de forma contextualizada, auxiliando no processo de ensino-aprendizagem
e estreitando relações através da promoção do trabalho coletivo e cooperado
entre os agentes sociais envolvidos.
Palavras-
chave: Horta escolar. Hábitos saudáveis. Educação
Infantil.
INTRODUÇÃO
O presente artigo
apresenta o relato da prática de Estágio Supervisionado II. O Projeto
desenvolvido abordou o processo minucioso de realizar uma horta no contexto
escolar. O tema do Projeto surgiu a partir da necessidade das crianças do
contato com a natureza e principalmente a conscientização de cultivar hábitos
saudáveis desde a infância.
Como futuras educadoras,
devemos estar cientes de que o contato direto das crianças com a terra desperta
o gosto do cuidado e o valor por todo o ambiente que as circunda e potencializa
a criatividade, porém, necessitamos “derrubar as paredes” do comodismo,
para que, assim, possamos refazer elos de proximidade com o mundo natural e
consideração pelos desejos do corpo, já que somos parte intrínseca da natureza.
Em consequência, as propostas pedagógicas e de formação de educadores é de suma
importância que se orientem por objetivos de contemplação e reverência à
natureza, assim como de respeito pelas vontades do corpo que, nos humanos, é
também natureza.
A partir do supracitado,
através de manifestações, desejos e interesses das crianças para o contato com
a mãe terra, o tema do cultivo de hábitos saudáveis se deu de forma harmônica,
divertida e criativa, possibilitando na formação da criança a importância do
cuidado com a vida, no cultivo de hortaliças é consequência para uma vida
saudável.
CONSTRUÇÃO
DA HORTA ESCOLAR
Quando colocamos as
crianças como os agentes da execução, possibilitamos que as mesmas passem a ter
cuidado com o ambiente escolar, espaços externos e internos da sala de aula ou
da escola e cuidado das relações humanas que traduzem respeito e carinho consigo
mesmo, com o outro e com o mundo.
Neste contexto, o cultivo
de hortas escolares pode ser um valioso instrumento educativo. O contato com a
terra no preparo dos canteiros e a descoberta de inúmeras formas de vida que
ali existem e convivem, o encanto com as sementes que brotam como mágica, a
prática diária do cuidado – regar, transplantar, tirar inço, espantar formigas
com o uso da borra de café ou plantio de coentro -, o exercício da paciência e
perseverança até que a natureza nos brinde com a transformação de pequenas
sementes em verduras e legumes viçosos e coloridos. Estas vivências podem
transformar pequenos espaços da escola em cantos de muito encanto e aprendizado
para todas as idades.
As Diretrizes
Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI) também trazem uma
reflexão sobre o tema. Neste documento está expresso que: Art. 9o: As práticas
pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter
como eixos norteadores as interações e a brincadeira, garantindo experiências
que: VIII – incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o
questionamento, a indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo
físico e social, ao tempo e a natureza.
De acordo com
Tiriba (2000, p. 5), a vivência profunda com a natureza
possibilita que as crianças a explorem e indaguem sobre seus fenômenos,
construindo hipóteses sobre como as coisas acontecem. Mas essas experiências só podem acontecer se
as crianças se constituírem como sujeitos de seus corpos e movimentos, se forem
sujeitos dos espaços naturais e sociais onde vivem e convivem.
As DCNEI propõem
critérios curriculares para o aprendizado em creche e pré-escola, buscam a
uniformização da qualidade desse atendimento. As diretrizes indicam as
capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças: de ordem física, cognitiva,
ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social e
fornecem os campos de ação. Nesses campos serão especificados o conhecimento de
si e do outro, o brincar, o movimento, a língua oral e escrita, a matemática,
as artes visuais, a música e o conhecimento do mundo, ressaltando a construção
da cidadania.
Sem dúvida alguma é
importante que o espaço escolar seja um lugar para aprendizagens
significativas, porém, não se resume meramente ao espaço interno; explorar a
parte externa como pátio, jardins e horta favorece uma visão de mundo ampla
para a criança:
Na horta,
aprendemos que o solo fértil é o solo vivo que contém em cada centímetro cúbico
bilhões de organismos vivos. Essas bactérias que existem no solo realizam
muitas transformações na vida da Terra. Devida à natureza básica do solo vivo,
nós precisamos preservar a integridade dos grandes ciclos ecológicos em nossa
prática de jardinagem e agricultura. Esse princípio, baseado num profundo respeito
pela vida, faz parte de muitos métodos tradicionais de cultivo da terra e está
sendo hoje resgatado num movimento mundial de retomada da agricultura orgânica.
A horta da escola é o lugar ideal para se ensinar as crianças os méritos da
agricultura orgânica (CAPRA,
2005, p. 13).
O Projeto “Horta escolar” teve duração de treze
dias, iniciando com a saída de campo em
visita a uma horta, na qual as crianças tiveram oportunidade de explorar a
variedade de hortaliças, flores e chás, o que facilitou o início da construção
da horta escolar, dando noção básica do procedimento a se realizar na escola.
Dando continuidade à prática de estágio, nos dias subsequentes foram
trabalhadas as diferentes hortaliças e frutas por meio dos livros de contos
como: “O Grande Rabanete”, “A Horta do Senhor Lobo” a “Cesta de Dona Maricota”
e “O Grande Morango Vermelho”.
Utilizaram-se fantoches e muita criatividade
na elaboração de trabalhos manuais com papel pardo, tintas naturais, argila,
etc. Após as atividades com a contação de histórias se buscava ir todos os dias
depois das dez horas fazer a prática na horta: preparar canteiros, semear
verduras, plantar mudas de hortaliças e frutas, regar, adubar e ver o
desenvolvimento das plantinhas. Sempre havia novas descobertas que as crianças
traziam de casa, a partir do diálogo com os pais acerca da atividade e até na
própria horta escolar que eles ajudaram a construir.
Também foram realizadas atividades com material
reciclável como as garrafas pet para fazer os “puffs” (pufes) das crianças e
“galoneras” (tambores) de água de 20 litros para fazerem os canteiros de verduras.
Para cuidar da horta foi confeccionado um mascote, ou melhor, um
espantalho, com o qual foi batizado com
o nome de “Henrique”. Ele nos acompanhou em todas as atividades restantes na
horta.
Foram realizadas diferentes atividades com hortaliças
como: a semeadura, transplantação das mudas, o cuidado com a necessidade de água
e adubo para as plantas no seu processo de desenvolvimento, acima de tudo os
cuidados fundamentais, e o cultivo correto das hortaliças dando importância à
alimentação saudável baseada em alimentos que atendem às necessidades do nosso
organismo. Essas necessidades mudam de acordo com a idade e o sexo de cada um
de nós e, ainda, com as atividades que exercemos. Uma alimentação saudável e
equilibrada deve conter diversos nutrientes: carboidratos, proteínas, lipídeos
(gorduras), água, vitaminas, minerais e fibras. Por isso a necessidade de saber
da onde surgem as hortaliças e sua importância nos hábitos saudáveis do
cotidiano das crianças.
A horta é uma possibilidade lúdica e concreta das
crianças vivenciarem o planejamento, o nascimento, o crescimento, a coleta e a
preparação do alimento. Esse processo pode parecer simples, mas na prática,
torna-se inesquecível para os educandos.
O estágio culminou em mais uma saída de campo para
um supermercado, as crianças se locomoveram nas proximidades da escola com o
objetivo de fazerem as compras das verduras necessárias a fim de prepararem
sanduíches naturais. Realizaram-se as compras e ao retornarem na escola lavaram
as verduras e eles próprios elaboraram seus sanduíches com os ingredientes que
cada escolhera. Com caracterização de chefes de cozinha, aventais, tocas,
pratos, talheres e guardanapos, a sala de aula se transformou em um restaurante
segundo os alunos. Esta foi à atividade de culminância do Projeto, incentivando
o cuidado com a vida, em especial, com o cultivo de alimentos saudáveis no
espaço escolar.
No decorrer do Projeto “Horta Escolar” se constata
o desenvolvimento e embelezamento da própria Escola. Cada dia surgia uma novidade:
as cenouras estão desapontando, o rabanete cresceu, as flores começam a florir.
No minhocário produzido pelas próprias crianças, as minhocas se desenvolviam e
produziam o adubo para colocar nos canteiros, as sementes da salsicha, alface e
vagens foram crescendo, e as mudas transplantadas, os canteiros dos pneus foram
pintadas. E no centro da horta foram colocadas flores para embelezar o espaço.
A Escola com todo o corpo docente e pais acolheram o Projeto de forma
impressionante, porque estão dando continuidade no projeto com o cuidado de
regar e cultivar esse espaço até então não oferecido na escola.
A relação das crianças com a natureza fez despertar
o cuidado com todo o ambiente externo, dando lugar ao novo meio de
aprendizagem. As mesmas verduras cultivadas pelos alunos da turma do Jardim II
foram partilhadas com outras turmas nas refeições oferecidas na escola.
Portanto, cabe ao professor promover o
desenvolvimento de atividades que provoquem a curiosidade, o envolvimento, a
livre participação e colaboração da criança, assim como a interação com vistas
a construir novos conhecimentos.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A partir das atividades
realizadas percebe-se o resultado em curto prazo no desenvolvimento do Projeto.
Crianças com menos receio de provar saladas e alimentos naturais cultivados na
horta. Além do sentido de pertença e construção coletiva que se deu de forma
criativa, livre e harmoniosa.
Em longo prazo e
continuando a trabalhar a questão do cuidado e cultivo da horta escolar,
acredito que os hábitos alimentares das crianças do Jardim II irão evoluir,
fazendo com que as crianças aceitem melhor os alimentos fornecidos na escola e
que estão no cardápio elaborado pela nutricionista.
Durante todo o período do
estágio, procurei contemplar atividades que envolvessem técnicas diferentes e
que estimulassem diretamente na alimentação das crianças, bem como o cuidado do
próprio espaço, nesse caso a horta cultivada por eles. Acredito que o objetivo
geral do Projeto foi plenamente alcançado, sendo observadas as falas e
registros das crianças.
Percebo que o estágio
proporcionou muitos outros momentos de conversas e reflexões com a turma, com
professores e pais, onde fica constatado que através de diversas práticas
pedagógicas, o professor cria possibilidades de aprendizagens significativas
que facilitam a aprendizagem das crianças.
Desenvolvendo atividades
de acordo com os conhecimentos e realidades das crianças, percebe-se a troca
muito proveitosa entre professor e aluno, criando espaço de confiança, amizade
e amor pelo espaço escolar.
Portanto, fica comprovada
que a horta escolar é uma possibilidade lúdica e concreta das crianças
vivenciarem o planejamento, o nascimento, o crescimento, a coleta e a
preparação do alimento, além de proporcionar novas descobertas que levaram para
a vida. Esse processo pode parecer simples, mas, na prática, torna-se
inesquecível.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto.
Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a
educação infantil. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de
Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em:
< http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&id=12579:educacao-infantil>.
Acesso em: 22 de Nov. 2014.
BRASIL.
Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Brinquedos e
brincadeiras nas creches: manual de orientação pedagógica/ Ministério da
Educação. Secretaria da educação básica. – Brasília: MEC/SEB, 2012.
Disponível em:
< http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&id=12579:educacao-infantil>.
Acesso em: 20 de Nov. 2014.
BRASIL. Ministério
da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares
nacionais para a educação infantil. Secretaria de Educação Básica. Brasília:
MEC, SEB, 2012. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.phpoption=com_docman&task=doc_download&gid=9769&Itemid>.
Acesso em: 03 de Nov. 2014.
CAPRA,
Fritjof e Michal K. Stoone e Zenobia Barlow: (Orgs.). Alfabetização
Ecológica. A educação das crianças para um mundo sustentável. Tradução de Carmen
Fischer, São Paulo: Cultrix, 2006.
GADOTTI,
Moacir. Pedagogia da Terra. Série Brasil cidadão. São Paulo: Petrópolis,
2000
MOURA,
Marcelo; S. ASSIS, Ana Eleonora. A Ética na Educação Infantil. Porto
Alegre: 2009. Disponível em: < http://guaiba.ulbra.br/seminario/eventos/2009/artigos/edfis/salao/595.pdf> .Acesso em 22 de Nov. 2014.
TIRIBA, Léa. Crianças da natureza. Rio de Janeiro: PUC - Rio, 2006. Disponível
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TIRIBA, Léa. Crianças, Natureza e Educação Infantil.
Rio de Janeiro: PUC - Rio, 2005. Disponível em:< http://29reuniao.anped.org.br/trabalhos/trabalho/GT07-2304--Int.pdf
>.
Acesso em: 10 de Nov. 2014.
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