segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Artigo de Estágio II

Horta escolar: Meios saudáveis no modo de relacionar-se das crianças com a natureza na construção de uma horta.
                                                                                                          Carla Luisa Frey Bamberg[1]         
RESUMO: O presente artigo apresenta uma reflexão sobre a prática de estágio obrigatório II do Centro Universitário La Salle – Unilassalle -, realizado em uma turma de Jardim II (com 5 e 6 anos de idade) da Educação Infantil em uma escola pública do município de Canoas. Apresenta de forma resumida e sucinta a abordagem do projeto “Horta escolar”, bem como a importância de trabalhar este projeto “horta” desde cedo com  crianças, envolvendo a família, professores e a comunidade escolar no processo de construção de hábitos saudáveis. A horta inserida no ambiente escolar torna-se um laboratório que possibilita o desenvolvimento de diversas atividades pedagógicas em educação ambiental e alimentar, unindo teoria e prática de forma contextualizada, auxiliando no processo de ensino-aprendizagem e estreitando relações através da promoção do trabalho coletivo e cooperado entre os agentes sociais envolvidos.

Palavras- chave: Horta escolar. Hábitos saudáveis. Educação Infantil.

INTRODUÇÃO

       O presente artigo apresenta o relato da prática de Estágio Supervisionado II. O Projeto desenvolvido abordou o processo minucioso de realizar uma horta no contexto escolar. O tema do Projeto surgiu a partir da necessidade das crianças do contato com a natureza e principalmente a conscientização de cultivar hábitos saudáveis desde a infância.
Como futuras educadoras, devemos estar cientes de que o contato direto das crianças com a terra desperta o gosto do cuidado e o valor por todo o ambiente que as circunda e potencializa a criatividade, porém, necessitamos “derrubar as paredes” do comodismo, para que, assim, possamos refazer elos de proximidade com o mundo natural e consideração pelos desejos do corpo, já que somos parte intrínseca da natureza. Em consequência, as propostas pedagógicas e de formação de educadores é de suma importância que se orientem por objetivos de contemplação e reverência à natureza, assim como de respeito pelas vontades do corpo que, nos humanos, é também natureza.
A partir do supracitado, através de manifestações, desejos e interesses das crianças para o contato com a mãe terra, o tema do cultivo de hábitos saudáveis se deu de forma harmônica, divertida e criativa, possibilitando na formação da criança a importância do cuidado com a vida, no cultivo de hortaliças é consequência para uma vida saudável.

CONSTRUÇÃO DA HORTA ESCOLAR

Quando colocamos as crianças como os agentes da execução, possibilitamos que as mesmas passem a ter cuidado com o ambiente escolar, espaços externos e internos da sala de aula ou da escola e cuidado das relações humanas que traduzem respeito e carinho consigo mesmo, com o outro e com o mundo.
Neste contexto, o cultivo de hortas escolares pode ser um valioso instrumento educativo. O contato com a terra no preparo dos canteiros e a descoberta de inúmeras formas de vida que ali existem e convivem, o encanto com as sementes que brotam como mágica, a prática diária do cuidado – regar, transplantar, tirar inço, espantar formigas com o uso da borra de café ou plantio de coentro -, o exercício da paciência e perseverança até que a natureza nos brinde com a transformação de pequenas sementes em verduras e legumes viçosos e coloridos. Estas vivências podem transformar pequenos espaços da escola em cantos de muito encanto e aprendizado para todas as idades.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI) também trazem uma reflexão sobre o tema. Neste documento está expresso que: Art. 9o: As práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira, garantindo experiências que: VIII – incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o questionamento, a indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo físico e social, ao tempo e a natureza.gvt
De acordo com Tiriba (2000, p. 5), a vivência profunda com a natureza possibilita que as crianças a explorem e indaguem sobre seus fenômenos, construindo hipóteses sobre como as coisas acontecem.  Mas essas experiências só podem acontecer se as crianças se constituírem como sujeitos de seus corpos e movimentos, se forem sujeitos dos espaços naturais e sociais onde vivem e convivem.
As DCNEI propõem critérios curriculares para o aprendizado em creche e pré-escola, buscam a uniformização da qualidade desse atendimento. As diretrizes indicam as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças: de ordem física, cognitiva, ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social e fornecem os campos de ação. Nesses campos serão especificados o conhecimento de si e do outro, o brincar, o movimento, a língua oral e escrita, a matemática, as artes visuais, a música e o conhecimento do mundo, ressaltando a construção da cidadania.
Sem dúvida alguma é importante que o espaço escolar seja um lugar para aprendizagens significativas, porém, não se resume meramente ao espaço interno; explorar a parte externa como pátio, jardins e horta favorece uma visão de mundo ampla para a criança:

Na horta, aprendemos que o solo fértil é o solo vivo que contém em cada centímetro cúbico bilhões de organismos vivos. Essas bactérias que existem no solo realizam muitas transformações na vida da Terra. Devida à natureza básica do solo vivo, nós precisamos preservar a integridade dos grandes ciclos ecológicos em nossa prática de jardinagem e agricultura. Esse princípio, baseado num profundo respeito pela vida, faz parte de muitos métodos tradicionais de cultivo da terra e está sendo hoje resgatado num movimento mundial de retomada da agricultura orgânica. A horta da escola é o lugar ideal para se ensinar as crianças os méritos da agricultura orgânica (CAPRA, 2005, p. 13).
     
O Projeto “Horta escolar” teve duração de treze dias,  iniciando com a saída de campo em visita a uma horta, na qual as crianças tiveram oportunidade de explorar a variedade de hortaliças, flores e chás, o que facilitou o início da construção da horta escolar, dando noção básica do procedimento a se realizar na escola. Dando continuidade à prática de estágio, nos dias subsequentes foram trabalhadas as diferentes hortaliças e frutas por meio dos livros de contos como: “O Grande Rabanete”, “A Horta do Senhor Lobo” a “Cesta de Dona Maricota” e “O Grande Morango Vermelho”.
 Utilizaram-se fantoches e muita criatividade na elaboração de trabalhos manuais com papel pardo, tintas naturais, argila, etc. Após as atividades com a contação de histórias se buscava ir todos os dias depois das dez horas fazer a prática na horta: preparar canteiros, semear verduras, plantar mudas de hortaliças e frutas, regar, adubar e ver o desenvolvimento das plantinhas. Sempre havia novas descobertas que as crianças traziam de casa, a partir do diálogo com os pais acerca da atividade e até na própria horta escolar que eles ajudaram a construir.
Também foram realizadas atividades com material reciclável como as garrafas pet para fazer os “puffs” (pufes) das crianças e “galoneras” (tambores) de água de 20 litros para fazerem os canteiros de verduras. Para cuidar da horta foi confeccionado um mascote, ou melhor, um espantalho,  com o qual foi batizado com o nome de “Henrique”. Ele nos acompanhou em todas as atividades restantes na horta.
Foram realizadas diferentes atividades com hortaliças como: a semeadura, transplantação das mudas, o cuidado com a necessidade de água e adubo para as plantas no seu processo de desenvolvimento, acima de tudo os cuidados fundamentais, e o cultivo correto das hortaliças dando importância à alimentação saudável baseada em alimentos que atendem às necessidades do nosso organismo. Essas necessidades mudam de acordo com a idade e o sexo de cada um de nós e, ainda, com as atividades que exercemos. Uma alimentação saudável e equilibrada deve conter diversos nutrientes: carboidratos, proteínas, lipídeos (gorduras), água, vitaminas, minerais e fibras. Por isso a necessidade de saber da onde surgem as hortaliças e sua importância nos hábitos saudáveis do cotidiano das crianças.
A horta é uma possibilidade lúdica e concreta das crianças vivenciarem o planejamento, o nascimento, o crescimento, a coleta e a preparação do alimento. Esse processo pode parecer simples, mas na prática, torna-se inesquecível para os educandos.
O estágio culminou em mais uma saída de campo para um supermercado, as crianças se locomoveram nas proximidades da escola com o objetivo de fazerem as compras das verduras necessárias a fim de prepararem sanduíches naturais. Realizaram-se as compras e ao retornarem na escola lavaram as verduras e eles próprios elaboraram seus sanduíches com os ingredientes que cada escolhera. Com caracterização de chefes de cozinha, aventais, tocas, pratos, talheres e guardanapos, a sala de aula se transformou em um restaurante segundo os alunos. Esta foi à atividade de culminância do Projeto, incentivando o cuidado com a vida, em especial, com o cultivo de alimentos saudáveis no espaço escolar.
No decorrer do Projeto “Horta Escolar” se constata o desenvolvimento e embelezamento da própria Escola. Cada dia surgia uma novidade: as cenouras estão desapontando, o rabanete cresceu, as flores começam a florir. No minhocário produzido pelas próprias crianças, as minhocas se desenvolviam e produziam o adubo para colocar nos canteiros, as sementes da salsicha, alface e vagens foram crescendo, e as mudas transplantadas, os canteiros dos pneus foram pintadas. E no centro da horta foram colocadas flores para embelezar o espaço. A Escola com todo o corpo docente e pais acolheram o Projeto de forma impressionante, porque estão dando continuidade no projeto com o cuidado de regar e cultivar esse espaço até então não oferecido na escola.
A relação das crianças com a natureza fez despertar o cuidado com todo o ambiente externo, dando lugar ao novo meio de aprendizagem. As mesmas verduras cultivadas pelos alunos da turma do Jardim II foram partilhadas com outras turmas nas refeições oferecidas na escola.
Portanto, cabe ao professor promover o desenvolvimento de atividades que provoquem a curiosidade, o envolvimento, a livre participação e colaboração da criança, assim como a interação com vistas a construir novos conhecimentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das atividades realizadas percebe-se o resultado em curto prazo no desenvolvimento do Projeto. Crianças com menos receio de provar saladas e alimentos naturais cultivados na horta. Além do sentido de pertença e construção coletiva que se deu de forma criativa, livre e harmoniosa.
Em longo prazo e continuando a trabalhar a questão do cuidado e cultivo da horta escolar, acredito que os hábitos alimentares das crianças do Jardim II irão evoluir, fazendo com que as crianças aceitem melhor os alimentos fornecidos na escola e que estão no cardápio elaborado pela nutricionista.
Durante todo o período do estágio, procurei contemplar atividades que envolvessem técnicas diferentes e que estimulassem diretamente na alimentação das crianças, bem como o cuidado do próprio espaço, nesse caso a horta cultivada por eles. Acredito que o objetivo geral do Projeto foi plenamente alcançado, sendo observadas as falas e registros das crianças.
Percebo que o estágio proporcionou muitos outros momentos de conversas e reflexões com a turma, com professores e pais, onde fica constatado que através de diversas práticas pedagógicas, o professor cria possibilidades de aprendizagens significativas que facilitam a aprendizagem das crianças.
Desenvolvendo atividades de acordo com os conhecimentos e realidades das crianças, percebe-se a troca muito proveitosa entre professor e aluno, criando espaço de confiança, amizade e amor pelo espaço escolar.
Portanto, fica comprovada que a horta escolar é uma possibilidade lúdica e concreta das crianças vivenciarem o planejamento, o nascimento, o crescimento, a coleta e a preparação do alimento, além de proporcionar novas descobertas que levaram para a vida. Esse processo pode parecer simples, mas, na prática, torna-se inesquecível.
REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Brinquedos e brincadeiras nas creches: manual de orientação pedagógica/ Ministério da Educação. Secretaria da educação básica. – Brasília: MEC/SEB, 2012. Disponível em:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil. Secretaria de Educação Básica. Brasília: MEC, SEB, 2012. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.phpoption=com_docman&task=doc_download&gid=9769&Itemid>. Acesso em: 03 de Nov. 2014.

CAPRA, Fritjof e Michal K. Stoone e Zenobia Barlow: (Orgs.). Alfabetização Ecológica. A educação das crianças para um mundo sustentável. Tradução de Carmen Fischer, São Paulo: Cultrix, 2006.

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. Série Brasil cidadão. São Paulo: Petrópolis, 2000

MOURA, Marcelo; S. ASSIS, Ana Eleonora. A Ética na Educação Infantil. Porto Alegre: 2009. Disponível em: < http://guaiba.ulbra.br/seminario/eventos/2009/artigos/edfis/salao/595.pdf> .Acesso em 22 de Nov. 2014.

TIRIBA, Léa. Crianças da natureza. Rio de Janeiro: PUC - Rio, 2006. Disponível em:<http://portal.mec.gov.br/index.phpoption=com_docman&task=doc_download&gid=7161&Itemid>. Acesso em: 10 de Nov. 2014.


TIRIBA, Léa. Crianças, Natureza e Educação Infantil. Rio de Janeiro: PUC - Rio, 2005. Disponível em:< http://29reuniao.anped.org.br/trabalhos/trabalho/GT07-2304--Int.pdf >. Acesso em: 10 de Nov. 2014.

[1] Acadêmica de Pedagogia, Semestre, UNILASALLE – Canoas.

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